segunda-feira, 11 de maio de 2009

Submeter ou dominar


Nilmar brilha e faz o gol mais bonito do campeonato brasileiro de 2009, logo na estréia contra o Corinthians

Alex Ferguson é quem diz que o time que tem a posse de bola tem mais chances de vencer. Possuir a bola é ocupar os espaços do jogo, controlar o tempo e dominar o adversário. Dominar ou submeter? Que diferenças poderiam ser apontadas nessas duas ações que, aparentemente, querem dizer a mesma coisa?


Até os 20 minutos do primeiro tempo entre Palmeiras e Coritiba, sábado, 9 de maio, na abertura do Brasileirão, no Palestra Itália, nenhum dos dois times permaneceu com a posse de bola mais do que 20 segundos. Havia escolhido esta partida para acompanhar, porque os outros dois jogos não ofereciam maiores atrativos, àquela altura do campeonato: o Sport, com reservas, empatava contra o Barueri, na Ilha, poupando-se para o jogo da volta, pela Libertadores, contra o próprio Palmeiras. O curioso, neste jogo, é que o gol do Barueri foi muito engraçado: de dentro da grande área, quase da linha de fundo, o atacante deu uma bomba que bateu no peito e braços do goleiro, que achou que a bola havia saído. Só que a bola subiu, subiu, subiu muito e foi picar na frente do gol, cheia de efeito, batendo na rede, junto ao travessão. Em tempos de gripe suína, um gol “espírito de porco”. Detalhe internético: o gol saiu no Marca da Espanha. Na Ressacada, o Avaí também empatava, na sua reestréia na Série A, contra um Galo vingador que reagiu e bem, após sair perdendo por dois a zero.


Na véspera, fizeram uma enquete com os 20 capitães da Série A para que apontassem (não valia o seu próprio time) quem seria o campeão brasileiro de 2009. Dos dezoito votos possíveis (já que o Guiñazú não poderia votar, sendo covardia exigir que o Tcheco fosse inteiramente sincero em sua escolha), 13 afirmavam que o Internacional seria o campeão Brasileiro. E de lambuja, o Ronaldo Fofômeno era apontado como o artilheiro, mas tinha Nilmar em seu encalço, estando apenas invertida a ordem, como, afinal, se viu.


No domingo, a Raposa depenava o Urubu, em pleno Mineirão, com dez em campo, desde o primeiro tempo. O Cruzeiro havia vencido o Universidade de Chile, na quinta, por dois a um, em Santiago, pela Libertadores. O Flamengo esperava fazer frente a nós, no Maraca, quarta-feira, 13, pelas quartas de final da Copa do Brasil, tarefa que se mostraria inglória. O Vitória venceu o Atlético, na Baixada, por dois a zero, na reestréia do Carpeggiani como técnico da Série A. O Fluminense, com uma bomba de Maurício, da meia-direita que entrou no ângulo, venceu o São Paulo, no Maracanã, pelo placar mínimo.


Mas é evidente que o golaço do ano foi feito, exatamente, na nossa estréia, frente ao Timão. Nilmar recebeu um lançamento de D’Alessandro de 40 metros, dominou a bola com o lado de dentro do pé direito, encostou-a na coxa, a dona redonda caiu no gramado e ele saiu em disparada, no sentido oposto, na diagonal, da direita para a esquerda. Passou por seis jogadores, deu uma última parada quase no bico da pequena área - o que fez com que o último zagueiro tocasse um LP do Vicente Celestino entre a L4 e L5 - e então, quase caindo, tocou no canto esquerdo de Felipe. Várias e várias vezes, a cena foi repetida. William e Fátima encerraram o Jornal Nacional, felizes, contentes, mostrando o gol ao Brasil inteiro. Todos, sem exceção, renderam-se à genialidade do lance e ao talento de Nilmar. Na noite seguinte, no Bem Amigos, todos pediram a sua convocação para a Seleção Brasileira que iria jogar a Copa das Confederações. Cuca, que treinava o Mengão, à época, afirmou, na segunda, que ele era a única pessoa no mundo que contara quantos toques na bola Nilmar havia dado: doze. Cuca, numa reação catatímica, nadava contra o repuxo para dizer que não considerava o Inter favorito, nem no Brasileiro, nem na Copa do Brasil. Bem se diz que os catatímicos não são bons para trabalhos periciais... Também outras reações foram colhidas da primeira rodada: Jean, um dos seis que ficaram pelo caminho e que milagrosamente não sofreu nenhuma lesão, no lance, disse que o Inter “não era um bicho de sete cabeças”, o que era uma verdade verdadeira. O Brother Menezes, cria da casa, que começou o seu aprendizado no suplementar “C” do Gigante, sobre o genial gol de Nilmar, citou o sábio e filósofo Rui Ferrer Di Santi, cria de São José do Ouro: “O bom cabrito não berra, não chora. Quando é a favor, a gente vibra”. Falcão disse que Nilmar correu mais rápido do que o Usain Bolt, já que descontada a bola, tudo resolveu-se num sopro de onze segundos. Seguiram-se Nilmar fenomenal (Wianey Carlet), Nilmaravilha, Nilmaradona e a manchete, preciosa e precisa do Caderno de Esportes da Zero Hora: “Um gol para Ronaldo Ver”. Uma foto menor, ao pé da página, mostrava Ronaldo olhando o vazio, o nada. Depois, dizem que ele foi embora do Pacaembu, pois não tinha mais nada para fazer ali. Uma colega escreveu de Minas para dizer que embora não fosse boleira e não entendesse nada de futebol, via-se obrigada a mandar parabéns, como se uma mínima parte do esforço, do ar e de cada larga passada de Nilmar, tivesse um pouco de todos os colorados espalhados pelo planeta.


Do jogo propriamente dito, lembro-me de poucas coisas: Lauro fez uma única defesa, no segundo tempo, quando o Timão teve a posse de bola, boa parte do tempo; Taison (descontado por uma lesão sofrida na quarta-feira anterior contra o Náutico) errou um gol debaixo dos paus, no primeiro tempo, o mesmo ocorrendo com Índio, pouco depois. Magrão e Bolívar não foram bem. D’Alessandro foi à São Paulo apenas para mandar um passe espetacular que fez Nilmar pensar “depois desse, eu vou pegar a bola, passar por um, dois, três, quatro, cinco e, depois, vou dar um corte no sexto, vou ajeitar o corpo e vou tocar no lado esquerdo do Felipe. Depois vou correr pro abraço e mandar um beijo pra dona Marisa, que hoje é dia das mães”. O gol de Nilmar além de genial e histórico, deu a sensação, não a nós, mas aos 9 reservas do Coringão (Brother Menezes é muito esperto, mesmo!) que era melhor não mexer com aquele time: sofrer uma derrota pelo placar mínimo estava de bom tamanho. E o que ninguém no mundo, na vida, no planeta Bola percebeu, só eu percebi: quando o Nilmar dribla o último zagueiro e ajeita o corpo para fazer o gol mais bonito do campeonato brasileiro de 2009, no canto do vídeo, embaixo, D’Alessandro já está com os braços erguidos, comemorando...


Dominar o jogo é permanecer com a bola onze segundos, driblar seis jogadores do time adversário, permanecer em pé, ter o tempo que os outros não têm para reagir em um átimo, e, ao fim de tudo isso, fazer parecer que jogar futebol é muito simples. E assim o fazendo, passar a impressão ao adversário de que se ele reagir será pior, porque ele não foi submetido, mas apenas dominado, confirmando o que Sir Alex Ferguson e, logicamente, D’Alessandro já sabiam.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo blog, Ary, e pelo golaço do Nilmar!

    Vc. é artista da palavra!

    A nota desabonadora é que vc. deixou de registrar o empate com gosto de vitória que o Galo, Vingador das Alterosas, arrancou em Santa Catarina, com direito a bola na trave no finalzinho; quase uma virada, digna do maior e melhor time das Minas Gerais.

    Grande abraço querido amigo

    Pepe Chaves
    belo horizonte, MG

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  2. Não esqueci, não, Pepe. Tá ali, ó

    "Na Ressacada, o Avaí também empatava, na sua reestréia na Série A, contra um Galo vingador que reagiu e bem, após sair perdendo por dois a zero."

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