domingo, 24 de maio de 2009

O que pode ser pior que fazer prova ?

- Só tem duas coisas piores do que fazer prova, disse Clarinha, oito anos, olhos muito azuis, fitando a estrada que insistia em não repetir paisagens: - morrer e desmaiar! Não sei o porquê da ordem estabelecida pela autora da genial resposta, mas a percepção que o ser humano tem de tudo que acontece ao seu redor é sempre marcada por um grau elevado de dramaticidade, afinal o que pode não ser nada para a maioria dos mortais, para nós é simplesmente vital. O que se constitui em um rematado absurdo, pois se todos habitamos o mesmo planeta, comemos com a boca, ouvimos com os ouvidos e sentimos os cheiros das coisas pelo nariz, fico um tanto quanto atônito quando um “semelhante do sexo masculino” diz que não gosta de futebol. A primeira coisa que penso é que, evidentemente, esse ser é de outro planeta. Ao depois, dependendo da resposta, como, por exemplo, se o sujeito diz que gosta de ciclismo e de jiu-jitsu, passo a ter certeza de que se o cara não é um E.T., por certo, é "chipado".

Pois bem, o mítico dia 20 de maio de 2009, em que batemos o Flamengo e assim avançamos para as semifinais da Copa do Brasil contra o também centenário Coritiba, trazia elevada eletricidade no ar a que estava, confesso, desacostumado. Já escrevi que não acredito em superstição (embora a isso não se equipare, por exemplo, sentar na terceira cadeira à esquerda, da décima quarta fila, à direita de quem entra pelo portão 8 do Gigante), tendo, inclusive, desenvolvido uma tese extensa e muito bem fundamentada a respeito do assunto. Mas, porém, todavia, contudo, as horas que precederam ao grande jogo foram angustiantemente periclitantes, pois perdi minha carteira e precisei conseguir uma emprestada. E, como se sabe, grandes jogos no Beira-Rio trazem um pouco de preocupação quanto ao acesso, já que o estádio, com capacidade para 50 mil pessoas, não conseguia mais acomodar os 88 mil sócios, número anunciado naquela noite.

O clima no ar era pesado. Procurei agarrar-me a alguns fatos que foram marcantes, naquela semana. O primeiro deles, Juan havia brigado com Cuca, na segunda-feira, por causa do excesso de treinamentos. Pensei: vamos fazer um gol, logo, com falha do Juan. Depois, quando o Mengo empatou, procurei pensar em coisas boas e as imagens das partidas em que ao invés de sofrermos gol, no final, o fizemos, renovavam-me as esperanças. Ibson, um craque “do futebol moderno” – que é diferente do craque de antigamente que se afirmava como nome próprio – fez uma falta absolutamente ridícula em Glaydson, que se não fosse pela falta não ofereceria nenhum perigo ao gol de Bruno.

Então, quando Andrezinho e D’Alessandro posicionaram-se para bater a falta, aos 43 minutos do segundo tempo, pude perceber claramente o que ocorreria. Lembrei-me de Cláudio Olímpio e do Edinho, dizendo que Andrezinho tivera poliomelite, perguntando como “é que vocês aguentam esse cara”. E lembrei da polêmica sobre a contratação (que não aconteceu) do Petkovic pelo próprio Flamengo, seus desdobramentos com a demissão-não-demissão do Kleber Leite por conta do fato. E lembrei do gol do Pet no Vasco, em 2001, aos 43’13” do segundo tempo, um golaço de falta em que a bola viajou um metro para fora do campo e depois entrou no ângulo. E que isso não acontece por acaso. E, então, tudo veio de roldão porque essas coisas todas não acontecem por acaso, elas se repetem. Como Nilmar copiou Maradona, dez dias antes, Andrezinho repetiu Petkovic, colocou a bola, com a mão, no ângulo de Bruno e, inapelavelmente, despachou o Mengão da Copa do Brasil. O Coxa venceu a Ponte com um gol no final, em pleno Couto Pereira, onde decidiríamos tudo, dali a duas quartas-feiras. O Corinthians, após abrir dois a zero em pleno Maracanã, deixou o Flu empatar, mas garantiu a classificação por ter vencido o jogo da ida por um a zero. O Timão faria a outra semifinal contra o Vasco, que empatou com o Vitória em 1 a 1, não sem antes tomar um susto, com um gol logo nos primeiros minutos.

A terceira rodada do Brasileirão não trouxe grandes surpresas: o Tricolor bateu o Fogão, no Olímpico, com direito a gol de bico do Jonas. São Paulo e Palmeiras empataram sem gols num Palestra Itália com muito pouca gente. O Galo Mineiro ganhou do Leão na Ilha do Retiro e preparou a queda de Nelsinho. Celso Roth, como sempre, começava bem, mas também já se sabia que terminaria como sempre terminava. O Fluminense tomava 4 do Peixe, em pleno Maracanã. O Vitória foi ao Mineirão e deu mais uma lógica, com a vitória do Cruzeiro. Santo André e Flamengo se engalfinhavam, mas o segundo ganhava, enfim. Avaí e Coxa, em Florianópolis, empatavam, em um jogo redundantemente igual. O Náutico, talvez a única surpresa, foi à Arena, pródiga em tragédias, e venceu o Atlético Paranaense, de virada.

No sábado, havia ido ao Queens, em Bento. Acomodei-me junto ao balcão e mentalizei uma vitória sobre o Goiás, em pleno Serra Dourada. Era o jogo em que Harley completava trezentos jogos com o Goiás, pelo Campeonato Brasileiro. Lamentavelmente (para ele, não para nós), Harley tomaria mais um gol, aos trinta e dois do segundo tempo, uma linda cabeçada de Taison que aparou um cruzamento certeiro de Marcelo Cordeiro. Luiz Carlos Jr., no Sportv, de maneira profética, disse: Com Taison em campo, pode-se esperar tudo! Poupamos, no jogo, D’Alessandro, Nilmar, Kleber e Índio. Taison entrou no segundo tempo, aos 15, logo depois de Sandro ocupar a vaga de Magrão. A grande notícia do jogo foi a volta de Sorondo, soberano na bola aérea, uma verdadeira tranqüilidade para o Lauro que fez uma das mais lindas defesas do campeonato, aparando com a mão uma bola desviada à queima roupa e de canela pelo Sandro.

Àquela altura do campeonato, liderávamos com cem por cento de aproveitamento. Em segundo lugar vinham Náutico e Atlético Mineiro com sete e, em terceiro, com seis, Cruzeiro e Vitória. O UOL reproduzia, como frase da semana, a de Taison: “Esse gol serviu para mostrar que não sou jogador só de gauchão”. E, em destaque, arrematava: “Inter bate Goiás por 1 a 0 e dispara na liderança”. O Terra anunciava: Inter vence e é o único 100%, referindo-se ao fato de que alcançávamos a liderança do campeonato sem tomar um único gol, em três rodadas.

Sobre o que poderia ser pior do que fazer prova, lembrei-me de que Roland Garros começava naquele domingo e que três brasileiros, além de Thomaz Belucci, superaram o qualifyng e se credenciavam a disputar a chave principal: Franco Ferreiro, Thiago Alves e Marcos Daniel. Olhando a chave, vi que o último deles, justamente o colorado de Passo Fundo Marcos Daniel, pegaria ninguém mais ninguém menos do que Rafael Nadal, em plena quadra central. Clarinha ainda não sabia, mas há coisas bem piores do que fazer prova, morrer e desmaiar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

“O Colorado já é líder”


Em manchete, o diário eletrônico globoesporte.com anunciava que o time misto do Inter vencia o Palmeiras no Gigante e chegara à liderança do Campeonato Brasileiro


O carro voava pelas ruas da Tijuca, pouco depois da meia-noite. Havia pouco, estivera no Maracanã com o Edinho e o Cláudio Olímpio, dois flamenguistas doentes e, como qualquer outro torcedor, vítimas de privação temporária dos sentidos. Nós, torcedores, somos assim mesmo, não há dúvida quanto ao fato. Afinal, qual lógica, que não a mágica, poderia explicar que os dois, aos gritos, pedissem a entrada do Obina e, ao primeiro erro do sósia do Eto’o, para logo em seguida mandarem ele tomar naquele lugar que para a maioria tem apenas uma única e exclusiva função? Pois foi o que ocorreu. Mas o que me chamou a atenção, verdadeiramente, foram os comentários do Gerson “Canhotinha de Ouro”, na Rádio Globo: “– Esse Índio, que heresia, alguém comparou com o Figueroa, esse Índio “num” joga nada... Esse Taison, esse moleque que dizem que é melhor que o Robinho, “num” joga nada. Esse “De Alessandro” (foi bem assim que ele demonstrou todo o seu conhecimento sobre futebol, pelo menos sobre o nosso), esse “De Alessandro” (repetiu, buscando inspiração), esse “De Alessandro” eu vi aqui, ninguém me contou, ele passou correndo aqui defronte da cabine da Rádio Globo, esse “De Alessandro corre nos calcanhar” (assim, assassinando a língua de Camões), esse argentino não joga nada!”, vociferou.


O tempo de reação dos flamenguistas (que a momentânea “perca” dos sentidos acaba pouco depois que homem de preto diz que, lamentavelmente, todos temos que ir para casa que amanhã é outro dia e que aquilo tudo é só um jogo de futebol!) me deixou um pouco mais tranqüilo: “o Gerson bebeu”, disseram, quase em uníssono. E eu poderia dizer “não, ele “fumou”, cerrrto?”


Mas o fato é que o empate sem gols contra o Mengo em pleno Maraca servira apenas para continuar a fazer o mundo pensar que não “éramos tudo aquilo” que o Lédio Carmona e o Alex Escobar haviam anunciado e que um único sábio ousara discordar, porque é dado a sofrer arroubos de profeta – como se isso não fosse atributo exclusivamente meu, pelo menos aqui neste espaço -, o Wanderley Luxemburgo. Naquele meio de semana, pela Copa do Brasil, para registro histórico, o Tricolor das Laranjeiras perdera para o Coringão pelo placar mínimo, no Pacaembú, o Vasco, amargando a Série B, havia feito o placar mais ilusório de todos, como os fatos mostrariam na semana seguinte, um 4 a 0 sobre o Vitória e o Coxa arrancara um empate em dois gols com a Ponte, em Campinas.


A segunda rodada do Brasileirão iniciara no sábado com uma derrota amarga do Tricolor para um Celso Roth, que após o jogo, mostrou-se mais inflado do que o Fausto Silva (aliás, todos sabem que a diferença entre o Fausto Silva e o Gugu Liberato redonda, digo, redunda, exatamente, em dois quilos e um terno Armani de 10 mil dólares!). Àquela altura do campeonato, o ex-treinador do Grêmio preferido da torcida do Inter, engordava o Galo, vingador das Alterosas. O mais discutido no jogo foi a “forma de tratamento dispensado pelo Senene” que, segundo o Souza, estava sendo grosseiro e rude com os jogadores. Nem o pênalti cometido pelo Joílson, que reconheceu que a bola tocou no seu cotovelo, aos 47 minutos do segundo tempo e que o Diego Tardelli converteu, deixando o Vitor de joelhos, causou tanta grita do co-irmão quanto à descortesia e má-educação do apitador. A FIFA iria “ser comunicada dos fatos”, disse o presidente Duda Kroeff, e nós ficaríamos sem saber o resultado do imbróglio. O São Paulo, num jogo cheio de erros de arbitragem em que um deles foi o pênalti sonegado em Marcinho, conquistava o seu primeiro ponto no campeonato ao empatar em 2 com o Atlético Paranaense, em pleno Morumbi. O Coxa, poupando-se para o jogo da volta contra a Ponte, tomou de quatro do poderoso Santo André, no mítico Alto da Glória. O Fogão empatou com o Fofômeno, no Engenhão. O Fluminense repetiu o time da estrela solitária e apenas empatou com o Barueri. O Cruzeiro tomou dois do Náutico, no mesmo Aflitos em que goleamos o Timbú por três a zero, semanas antes. No clássico nordestino, o Vitória foi melhor, venceu o Leão da Ilha, ferido em sua estima pela eliminação na Libertadores por São Marcos, dias antes, e dividia, com idêntica campanha, a liderança do campeonato. O Peixe empatara com o Goiás que também dividia com o Coxa, surpreendentemente, o melhor e o pior ataque do campeonato (saldo zero para seis gols marcados e sofridos).


Mas voltando ao Luxa, o fato era que o nosso efêmero ex-lateral esquerdo já não gozava mais da simpatia da nação colorada. Em entrevista à Rádio Gaúcha, pela manhã, Luxemburgo dissera que o Inter precisava ganhar o Brasileirão ou outra coisa para ser reconhecido como favorito no jogo e no campeonato. E emendou: “não é ganhando torneio de segunda-linha como a Sul-Americana que vai fazer do Inter o melhor time do Brasil”. Para que todos saibam, o sistema de monitoramento que montamos no mundo inteiro nos permite adicionar estes pequenos elementos à preleção de antes dos jogos, uma espécie de doping positivo junto ao estado anímico da rapaziada. (Blogpé: o monitoramento é possível a partir de convênio estabelecido com a NASA, que gentilmente nos disponibilizou seu sistema de satélites, pois como todos sabem o Obama é colorado já que a avó queniana dele andava por aqui, no início do século passado, e ajudou os Poppe a fundarem o Inter).


Então, o Taison jogou, inventou outro drible, muito parecido com o La Boba, fazendo Pierre perder o avião no dia seguinte, pois teve que ir até a rua Coronel Vicente, no centro de Porto Alegre, atrás de uma agulha para poder tocar o LP do Waldick Soriano (grande palmeirense) que ganhou na lombar, entre L5 e S1. O Glaydson furou em bola, digo, deixou ela passar e o Danny Moraes emendou rasteiro, rasante, sem chance para o Marcos, treinado pelo avô do algoz, Valdir de Moraes, que ao final do jogo disse estar “feliz e insatisfeito” com o feito do neto. Ou coisa que o valha.


Jogamos aquela partida com quatro titulares e um banco de reservas que tinha Michel Alves, Giuliano, Guiñazu, D’Alessandro, Nilmar, Kleber e Sorondo. Os “titulares” que começaram: Lauro (que seria vendido logo em seguida, pois naquela partida olheiros ingleses, assombrados, viram ele estufar o peito e bloquear uma bomba à queima-roupa de Keirrison, aos 47 do segundo tempo, salvando o gol de empate e permitindo um contra-ataque que se traduziria em gol de D’Alessandro, enlouquecendo a torcida para o jogo da volta da Copa do Brasil, na quarta-feira, ali mesmo naquele campo sagrado), Danilo, Bolívar, Danny Moraes e Marcelo Cordeiro; Glaydson, Sandro, Andrezinho e Rosinei; Taison e Alecsandro.


A torcida saiu às ruas, feliz da vida, divertindo-se com o comentário de nosso eterno presidente, Fernando Carvalho: - o final de semana foi emocionante para os secadores: uns, ontem, comemoraram gol aos 47 minutos do segundo tempo (referindo-se ao Galo vingador que sangrou o Tricolor, no finalzinho); outros, hoje, não tiveram a mesma sorte (referindo-se ao milagre de Lauro e à decepção dos gremistas). O globoesportes.com estampou, no próprio domingo: Colorado JÁ É líder.


Edinho e Cláudio Olímpio disseram que viriam ao Gigante, junto com a nação rubro-negra. Não levava muita fé no que diziam, mas eles acreditavam em Obina e Zé Roberto, que haviam sido respaldados pelo Cuca, no calorento vestiário do Maracanã, logo após o Mengão arrancar suado empate contra o valente Avaí, de Evando e Marquinhos. Adriano Imperador, recém chegado à Gávea, teve que apartar briga entre Juan e o Cuca na manhã daquela segunda-feira. Aldemiro Dantas, que na semana anterior, depois do gol antológico do Nilmar dissera que o Inter ia “levar o cacete” no Maracanã calçou as sandálias da humildade e mandou mensagem em que dizia que era bom os colorados irem comemorando a liderança conquistada frente ao Porco, porque na quarta-feira, no Gigante da Beira-Rio, o Mengão iria “arrancar” a classificação de qualquer maneira.


Enquanto isso, Tite e Cleber Xavier quebravam a cabeça para montar o time a partir das ausências de Índio e Magrão. Três dias antes do jogo, havia apenas 3.300 ingressos disponíveis para o jogo que valia vaga na semifinal da Copa do Brasil. A torcida, como faria outras vezes ao longo do ano, levaria o time nas costas e, daquela feita, as travas das chuteiras não ficariam marcadas na areia, mas arrancariam leivas do melhor gramado do país.


terça-feira, 12 de maio de 2009

Polvo de Estrellas

Naquela noite de 12 de maio, vieram-me à mente os versos de Jorge Drexler, em "Polvo de Estrellas"

"Se aprende na escola,
se esquece na guerra,
um filho te volta a ensinar.
Está no espelho,
está nas trincheiras,
parece que ninguém parece notar.
Toda vitória é nada
Toda vida é sagrada
"

Ernesto Cardenal, em meu ouvido, sussurrou baixinho seu "Canto cósmico":

"O que há numa estrela? Nós mesmos.
Todos os elementos de nosso corpo e do planeta
estiveram nas entranhas de uma estrela.
Somos poeira de estrelas.
"

Então, um homem, apenas, transformou-se em poeira de estrelas e a luz que irradiou cegou seus adversários, transformando aqueles 17,68 m2 em algo do tamanho de uma caixa de fósforos.

E Marcos venceu o Sport, em plena Ilha do Retiro. E virou lenda !

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Submeter ou dominar


Nilmar brilha e faz o gol mais bonito do campeonato brasileiro de 2009, logo na estréia contra o Corinthians

Alex Ferguson é quem diz que o time que tem a posse de bola tem mais chances de vencer. Possuir a bola é ocupar os espaços do jogo, controlar o tempo e dominar o adversário. Dominar ou submeter? Que diferenças poderiam ser apontadas nessas duas ações que, aparentemente, querem dizer a mesma coisa?


Até os 20 minutos do primeiro tempo entre Palmeiras e Coritiba, sábado, 9 de maio, na abertura do Brasileirão, no Palestra Itália, nenhum dos dois times permaneceu com a posse de bola mais do que 20 segundos. Havia escolhido esta partida para acompanhar, porque os outros dois jogos não ofereciam maiores atrativos, àquela altura do campeonato: o Sport, com reservas, empatava contra o Barueri, na Ilha, poupando-se para o jogo da volta, pela Libertadores, contra o próprio Palmeiras. O curioso, neste jogo, é que o gol do Barueri foi muito engraçado: de dentro da grande área, quase da linha de fundo, o atacante deu uma bomba que bateu no peito e braços do goleiro, que achou que a bola havia saído. Só que a bola subiu, subiu, subiu muito e foi picar na frente do gol, cheia de efeito, batendo na rede, junto ao travessão. Em tempos de gripe suína, um gol “espírito de porco”. Detalhe internético: o gol saiu no Marca da Espanha. Na Ressacada, o Avaí também empatava, na sua reestréia na Série A, contra um Galo vingador que reagiu e bem, após sair perdendo por dois a zero.


Na véspera, fizeram uma enquete com os 20 capitães da Série A para que apontassem (não valia o seu próprio time) quem seria o campeão brasileiro de 2009. Dos dezoito votos possíveis (já que o Guiñazú não poderia votar, sendo covardia exigir que o Tcheco fosse inteiramente sincero em sua escolha), 13 afirmavam que o Internacional seria o campeão Brasileiro. E de lambuja, o Ronaldo Fofômeno era apontado como o artilheiro, mas tinha Nilmar em seu encalço, estando apenas invertida a ordem, como, afinal, se viu.


No domingo, a Raposa depenava o Urubu, em pleno Mineirão, com dez em campo, desde o primeiro tempo. O Cruzeiro havia vencido o Universidade de Chile, na quinta, por dois a um, em Santiago, pela Libertadores. O Flamengo esperava fazer frente a nós, no Maraca, quarta-feira, 13, pelas quartas de final da Copa do Brasil, tarefa que se mostraria inglória. O Vitória venceu o Atlético, na Baixada, por dois a zero, na reestréia do Carpeggiani como técnico da Série A. O Fluminense, com uma bomba de Maurício, da meia-direita que entrou no ângulo, venceu o São Paulo, no Maracanã, pelo placar mínimo.


Mas é evidente que o golaço do ano foi feito, exatamente, na nossa estréia, frente ao Timão. Nilmar recebeu um lançamento de D’Alessandro de 40 metros, dominou a bola com o lado de dentro do pé direito, encostou-a na coxa, a dona redonda caiu no gramado e ele saiu em disparada, no sentido oposto, na diagonal, da direita para a esquerda. Passou por seis jogadores, deu uma última parada quase no bico da pequena área - o que fez com que o último zagueiro tocasse um LP do Vicente Celestino entre a L4 e L5 - e então, quase caindo, tocou no canto esquerdo de Felipe. Várias e várias vezes, a cena foi repetida. William e Fátima encerraram o Jornal Nacional, felizes, contentes, mostrando o gol ao Brasil inteiro. Todos, sem exceção, renderam-se à genialidade do lance e ao talento de Nilmar. Na noite seguinte, no Bem Amigos, todos pediram a sua convocação para a Seleção Brasileira que iria jogar a Copa das Confederações. Cuca, que treinava o Mengão, à época, afirmou, na segunda, que ele era a única pessoa no mundo que contara quantos toques na bola Nilmar havia dado: doze. Cuca, numa reação catatímica, nadava contra o repuxo para dizer que não considerava o Inter favorito, nem no Brasileiro, nem na Copa do Brasil. Bem se diz que os catatímicos não são bons para trabalhos periciais... Também outras reações foram colhidas da primeira rodada: Jean, um dos seis que ficaram pelo caminho e que milagrosamente não sofreu nenhuma lesão, no lance, disse que o Inter “não era um bicho de sete cabeças”, o que era uma verdade verdadeira. O Brother Menezes, cria da casa, que começou o seu aprendizado no suplementar “C” do Gigante, sobre o genial gol de Nilmar, citou o sábio e filósofo Rui Ferrer Di Santi, cria de São José do Ouro: “O bom cabrito não berra, não chora. Quando é a favor, a gente vibra”. Falcão disse que Nilmar correu mais rápido do que o Usain Bolt, já que descontada a bola, tudo resolveu-se num sopro de onze segundos. Seguiram-se Nilmar fenomenal (Wianey Carlet), Nilmaravilha, Nilmaradona e a manchete, preciosa e precisa do Caderno de Esportes da Zero Hora: “Um gol para Ronaldo Ver”. Uma foto menor, ao pé da página, mostrava Ronaldo olhando o vazio, o nada. Depois, dizem que ele foi embora do Pacaembu, pois não tinha mais nada para fazer ali. Uma colega escreveu de Minas para dizer que embora não fosse boleira e não entendesse nada de futebol, via-se obrigada a mandar parabéns, como se uma mínima parte do esforço, do ar e de cada larga passada de Nilmar, tivesse um pouco de todos os colorados espalhados pelo planeta.


Do jogo propriamente dito, lembro-me de poucas coisas: Lauro fez uma única defesa, no segundo tempo, quando o Timão teve a posse de bola, boa parte do tempo; Taison (descontado por uma lesão sofrida na quarta-feira anterior contra o Náutico) errou um gol debaixo dos paus, no primeiro tempo, o mesmo ocorrendo com Índio, pouco depois. Magrão e Bolívar não foram bem. D’Alessandro foi à São Paulo apenas para mandar um passe espetacular que fez Nilmar pensar “depois desse, eu vou pegar a bola, passar por um, dois, três, quatro, cinco e, depois, vou dar um corte no sexto, vou ajeitar o corpo e vou tocar no lado esquerdo do Felipe. Depois vou correr pro abraço e mandar um beijo pra dona Marisa, que hoje é dia das mães”. O gol de Nilmar além de genial e histórico, deu a sensação, não a nós, mas aos 9 reservas do Coringão (Brother Menezes é muito esperto, mesmo!) que era melhor não mexer com aquele time: sofrer uma derrota pelo placar mínimo estava de bom tamanho. E o que ninguém no mundo, na vida, no planeta Bola percebeu, só eu percebi: quando o Nilmar dribla o último zagueiro e ajeita o corpo para fazer o gol mais bonito do campeonato brasileiro de 2009, no canto do vídeo, embaixo, D’Alessandro já está com os braços erguidos, comemorando...


Dominar o jogo é permanecer com a bola onze segundos, driblar seis jogadores do time adversário, permanecer em pé, ter o tempo que os outros não têm para reagir em um átimo, e, ao fim de tudo isso, fazer parecer que jogar futebol é muito simples. E assim o fazendo, passar a impressão ao adversário de que se ele reagir será pior, porque ele não foi submetido, mas apenas dominado, confirmando o que Sir Alex Ferguson e, logicamente, D’Alessandro já sabiam.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Os capitães têm seu favorito

Capitães dos 20 times elegem Inter e Ronaldo os favoritos a título e artilharia

Soberano nos últimos três anos, São Paulo recebe apenas um voto, contra 13 do campeão gaúcho. Fenômeno é lembrado nove vezes

GLOBOESPORTE.COM Rio de Janeiro

Internacional e Ronaldo lideraram a votação entre os 20 capitães do Campeonato Brasileiro

As atuações do Internacional neste ano impressionaram não apenas torcedores e jornalistas, mas os próprios jogadores adversários. O GLOBOESPORTE.COM quis saber, dos capitães dos 20 participantes do Brasileirão, quais os favoritos ao título e à artilharia - já que a disputa neste ano reúne goleadores de peso. Não valia, claro, votar na própria equipe, nem em um companheiro.

O campeão gaúcho recebeu 13 dos 19 votos possíveis, mais do que o dobro de todos os outros somados. Campeão mineiro, o Cruzeiro levou três votos. E o Corinthians, campeão paulista, recebeu dois. Curiosamente, o time que vem dominando o campeonato nos últimos três anos, oSão Paulo foi lembrado apenas uma vez, pelo colorado Guiñazu. O único capitão que não quis votar foi o goleiro cruzeirense Fábio.

- O Inter é um time muito forte, com jogadores de qualidade. Eles mostraram isso na conquista do Campeonato Gaúcho e, com certeza, estarão na briga pelo Brasileiro - argumentou William, do Corinthians.

O que falavam de nós 2

Em tom provocativo, Roberto Vieira, no blog do Juca, antevia a reedição de uma épica batalha, pela Copa do Brasil, entre o Mengão e o Colorado. Só não sei como o Inter, sentindo-se o tal, "encaçapou", na partida de volta, no Gigante, quatro no Flamengo, que chegara de mansinho, como a escolinha, abaixo, que existe de verdade e não é invenção de "mosqueteiros".

Piás rubro-negros

Por ROBERTO VIEIRA

Os colorados nem perceberam.

O inimigo foi chegando de mansinho.

Assim como quem não quer nada.

Antes mesmo do destino decidir quem é melhor: Internacional ou Flamengo.

Lembrando um pouco 1975.

O Inter de Figueroa entregando as faixas de campeão ao Flamengo no Maracanã.

Inter que se julgava o melhor time do Brasil.

Inter que foi encaçapado por 4 x 2 pelo Flamengo do Galinho.

Inter que devolveu em uma batalha épica no Beira-Rio dias depois: 4 x 0.

Pois a história se repete. O Internacional julgando-se o tal.

O Flamengo chegando como quem não quer nada.

Flamengo que cometeu crime em solo sagrado colorado.

De mansinho. Como quem não quer nada.

Flamengo que colocou um baita outdoor.

Bem ali. Na entrada sagrada do Beira-Rio.

Nas barbas do saci. Em letras garrafais.

Pra quem quiser ler: Escolinha FLA.

Piás rubro-negros?

Será verdade?

Ou tudo não passa de gozação mosqueteira?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O que falavam de nós - Parte 1

Em 02 de maio de 2009, Sérgio Xavier, da Placar, o "mais colorado dos gremistas", afirmava que nós seríamos páreo duríssimo para o Barcelona, de Messi, Xavi e companhia, mesmo após a goleada histórica de 6 a 2 sobre os Merengues, em pleno Bernabéu. Vejam, abaixo.


Inter e Barcelona, 900 dias depois
02.05.2009 - Por Sérgio Xavier


Dezembro de 2006, Japão. De um lado, o melhor time da Europa, o Barcelona. Ronaldinho Gaúcho ainda jogava bola, vejam só. Do outro, talvez o Internacional nem, fosse indiscutivelmente o melhor da América do Sul no momento da decisão. O São Paulo vencia o Brasileiro com alguma folga naqueles mesmos dias. Não muito longe de Porto Alegre morava o Boca Juniors. Que venceria meses depois a Libertadores passando por cima do Grêmio.

O tempo passou. O Barcelona desabou, perdeu campeonatos. O Internacional conseguiria uma façanha estatística ao ser o primeiro campeão de Libertadores a ser eliminado na primeira fase no ano seguinte. E tropeçaria nos dois Brasileiros seguintes, sem ficar entre os cinco melhores.

O tempo passou mais um pouco e chegamos em maio de 2009. Na Europa, talvez o Barcelona nem chegue a final da Liga dos Campeões. O Chelsea só precisa de uma vitória simples em casa para eliminá-lo nas semifinais. Mas só um míope não vê que nesse instante o Barcelona é o melhor time de futebol da Europa. E tem o melhor jogador, Messi, sem falar de Xavi, talvez o segundo melhor do momento. O Barcelona acaba de conquistar nesse sábado o Campeonato Espanhol com um incrível 6 x 2 no Real Madrid, e no Santiago Bernabeu. A competição ainda não acabou, mas todos sabem que já terminou faltando quatro jogos e uma diferença de sete pontos para tirar.


Na América do Sul, o Internacional não tem chances na Libertadores porque não se credenciou para disputá-la. Só por isso. Porque a equipe colorada é hoje a melhor do continente. Não tem Boca, São Paulo, Grêmio, Cruzeiro, Palmeiras ou Sport. Hoje ninguém joga o que o Internacional joga. Futebol de gente grande. Rápido no ataque, dinâmico no meio-campo, seguro na defesa. Ah, o Inter não ganhou de ninguém em 2009? Em termos. Venceu três vezes o Grêmio. Goleou o Náutico na Copa do Brasil, levantou o Gauchão invicto. A culpa não é colorada, foram os confrontos que apareceram pela frente. Nos últimos 15 jogos colorados, 14 vitórias e um empate. Foram 58 gols a favor e 10 contra. Tem um 5 x 0 contra o Guarani, um 8 x 2 contra o Caxias na final do Gauchão, um 6 x 2 contra o Esportivo, um 7 x 0 contra o Brasil de Pelotas. Poderemos falar da fraqueza dos adversários e não estaremos mentindo. Mas quem Brasil afora está goleando as galinhas mortas que aparecem pela frente?

É pena, mas não existe nenhum Internacional x Barcelona com data marcada. O Barça de hoje é mais forte do que aquele. Porque tem um Messi substituindo com sobras Ronaldinho e, principalmente, porque tem uma defesa bem mais confiável. O Inter de hoje é melhor do que o time campeão mundial. As defesas até se parecem, mas do meio para frente aconteceu uma explosão de qualidade. Sandro e Guiñazu são volantes de luxo. D'Alessandro é talento, Nilmar e Taison são velocidade máxima. E Magrão, que me parece o mais fraco do sexteto, se agiganta toda a vez que o jogo é grande.

Inter x Barça. Quem gosta de futebol merecia rever esse embate de continentes.

http://jornalplacar.abril.com.br/blogs/sergio-xavier/inter-barcelona-900-dias-depois-164623_p.shtml#comentarios

sábado, 2 de maio de 2009

O trabalho do tempo


Bueno, parto do princípio de que não precisamos nos apresentar. A tal da internet permite isso, permite essa desnecessidade de apresentação, afinal, estamos no campo da Polaroid dos relacionamentos. Clicou, abriu, leu, fechou, e se assim não foi ou for, o secretário do mundo, o Google, aí está para nos lembrar que a memória humana está com seus dias contados, e que você pode, facilmente, reencontrar o amigo que você levou minutos para fazer e uma fração de segundos para esquecer.


Sei que quem não gosta de futebol irá visitar esta página uma vez, talvez duas. Do mesmo modo, meus amigos tricolores não vão me render pontos no Ibest ou outros destes medidores de sucessos efêmeros que transformam cantoras teen em divas pop e crianças de nove anos em futuros Ronaldinhos.


O texto de apresentação de um blogue, deve rezar a regra de qualquer oficina literária cibernética, precisa nada mais do que a especificação clara para o que se destina.


E a motivação deste, dito, aqui, assim de modo explícito, “pretende” se constituir na maior pretensão de todos os “torcedores-compulsivos”: resolvi contar a história do tetracampeonato do Colorado, no ano do seu centenário, como se já estivéssemos no dia 06 de dezembro de 2009. Ou antes...


O tempo dar-se-á a um trabalho insignificante: o de passar. Porque a história, meus amigos, esta já terá sido contada.