Pelo amor de Deus, não me venham com faixas dizendo “EU ACREDITO”. Essa é a mais derrotista de todas as formas de motivação de um time de futebol. Para uma equipe de futebol experiente como esta, não será necessário este tipo de apelo sentimentalóide, tão exercitado pela torcida do Fluminense, em 2007. Deu no que deu: LDU !
O que me conforta é receber torpedos de tricolores, elogiando o gol do Ronaldo. Já? Assim, tão cedo? A respeito do time da Azenha, recomendo a leitura do artigo do Sérgio Xavier, no Jornal da Placar, intitulado “Um Grêmio de Argila” - http://jornalplacar.abril.com.br/blogs/sergio-xavier/gremio-argila-174770_p.shtml .
Recordo-me da história de um amigo de infância que, ao final de uma árdua, tensa e difícil concretização de um negócio, que lhe tomou meses de trabalho árduo, cansativo e estressante, mas que lhe reconfortava porque o resultado melhoraria muito a vida da empresa e de muitas pessoas. Para relaxar, chutou o balde e se foi ao comércio de corpos local. Lá chegando, contratou os serviços profissionais de quatro, vejam bem, eu disse QUATRO moçoilas e resolveu todos os seus problemas. Quer dizer, quase todos: já meio tocado com as cervejas que tomara antes, pagou a conta com cartão de crédito. E esqueceu do fato. Chegada a fatura na humilde residência, a titular, subiu nas pantufas, estufou o peito, enchendo ainda mais o chambre para cobrar, com imposição física e moral, as devidas explicações: - Mas o que é isto? Onde foi que tu gastou setecentos e quarenta reais? E o meu amigo, calmamente, rodado no assunto, respondeu: Tu não tem jeito mesmo. Estragou a surpresa! Esqueceste que daqui a dez dias estamos de aniversário de casamento? A mulher, ainda que desconfiada, desfranziu o cenho, fazendo desaparecer as duas rugas surgidas intempestivamente entre as sobrancelhas. O chambre desinchou-se, apenas a pantufa, em ato involuntário, teimava em lustrar o piso. Vendo que a situação se acalmara, meu amigo ganhou a rua sob o pretexto de comprar um filé com nata para a janta. E dali ganhou as ruas da cidade, de joalheria em joalheria, procurando por um par de brincos, uma pulseira, um colar, o raio-que-o-parta que custasse exatamente os setecentos e quarenta reais para, ainda naquela noite, selar a paz conjugal.
Encontrar o resultado após a derrota de ontem à noite não passa, evidentemente, apenas pela corrente de pensamento positivo da nação colorada. Passa, ao revés, pelo exame dos erros cometidos durante a partida que nos colocou em complicada situação para o jogo da volta. Passa pela consciência de que não tínhamos uma defesa com três zagueiros, o que permitiu a Marcelo Oliveira usufruir de uma avenida pela direita. E pela falha na cobertura de Marcelo Cordeiro, com muitas dificuldades de parar Jorge Henrique. E porque Magrão simplesmente teve sonegada a cadência e o domínio da bola, em virtude da velocidade do jogo, fruto, também, da modificação do sistema defensivo, com um ala e um zagueiro que, ainda que tenha velocidade, ainda não percebeu que, na área, não se dá bote. Da mesma maneira, a chave para a vitória passará pelo domínio do jogo, pelo controle da bola, pela triangulação que ontem funcionou em três lances, todos salvos por Felipe. E se fizermos gol cedo, passa por marcar as cobranças de faltas, impedindo que elas sejam feitas rapidamente, como Elias reconheceu que faz sempre e nunca houve problema algum.
Manter a cobrança, por parte da diretoria, a respeito da complacência do apitador, que não excluiu nenhum dos quatro jogadores do adversário que estavam pendurados pelo cartão amarelo. Chicão, em um deles, parou um contra-ataque e sequer recebeu admoestação do árbitro. Mas isso é papel para o Fernando Carvalho. E isso já está sendo feito.
O grupo deve se fechar em torno do objetivo, estudar o adversário incansavelmente, pensar alternativas para o jogo e buscar a máxima e sublime concentração. Nem preciso lembrar de Magic Paula, que após receber a medalha de ouro das mãos do comandante-em-chefe Fidel Castro, cunhou a célebre “no esporte, o mais bonito é a superação”.
No nosso caso, nem se trata disso, pois a qualidade prepondera, sempre. A qualidade, com Nilmar e Kleber, aliada ao maior nível de testosterona, que também é importante nestas horas, porque na verdade se trata de, como o meu amigo, após um desatino buscar um desafogo, procurar e encontrar um presente de igual valor: dois a zero. Mas se for possível comprar um presente por três gols de diferença, sofreremos um pouco menos.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
domingo, 7 de junho de 2009
(H)Ora pro nobis, filho
O nome do homem de amarelo para Cruzeiro e Inter, nas Alterosas, foi Antônio Hora Filho. Confesso que nunca havia ouvido falar no dito cujo. Afora Fluminense e Botafogo, em que Fred desencantou e marcou o gol da vitória do Tricolor do Parreira, não havia outros clássicos pela quinta rodada, em que perdemos nossos primeiros dois pontos.
Então, todos olhavam para nós naquele que seria uma prévia do grande jogo do campeonato, que se daria naquele ensolarado segundo domingo de setembro, com transmissão da Globo para todo o país, desta feita, direto do Gigante. O jogo foi nervoso, com lances de karatê, kung-fú e taekwondo, em especial uma voadora do Bolívar que, tomou amarelo e, depois disso, segurou o amarelo durante o jogo inteiro. E foi o dia em que nem o papai Lauro, talvez depois de tantas noites insones, agüentou Kleber, o bolero mais chato, marrento, malandro e anti-herói do futebol brasileiro, desde os tempos de Edmundo – no Palmeiras, porque nos outros clubes em que jogou, era injusto chamá-lo de Animal, tamanha a sua docilidade. No aguardo de um escanteio, Kleber deu um empurrão em Marcelo Cordeiro. Lauro tomou as dores, chega perto de Kleber que pisa no seu pé esquerdo, bem em cima do joanete, que dói pra burro e, como se tivesse recebido aquelas batidinhas do martelo do médico no joelho, nosso goleirão dá uma “botinada” na canela da “vítima”. O juiz aconselha-se com o bandeirinha, expulsa Kleber pela fama construída e pela péssima interpretação no “ai-ai-ai-minha-canela”, e o Lauro pelo “ato-reflexo involuntário” perfeitamente compreensível. Saímos na frente, com uma cabeçada certeira do Magrão, em cobrança de escanteio, em que um petrificado Fábio nada pôde fazer – que sina que goleiro do Cruzeiro tem em não esboçar reação quando toma gol de cabeça do Inter, como Raul, no gol iluminado” do Figueroa, em 1975. Com a expulsão do Lauro, saiu Alecsandro e entrou Michel Alves, com sua cachoupa agarrada na cabeça, que fez minha cara-metade perguntar: - Cruzes, quem é esse? É o Michel Alves, respondi, calmamente, temendo pelo pior que, nestes casos, é o eventual desdobramento da pergunta em outra ou outras: De onde ele saiu? Do Juventude, respondi, quase fechando os ouvidos, pois já sabia o que viria, que vem de longe minha ciência sobre a íntima relação que todas as mulheres do mundo têm com goleiros: NÃO VAI ME DIZER QUE É AQUELE QUE TOMOU 8 GOLS, ANO PASSADO, UM DELES DO MEU CLEMER ? Ai meu Deus, tamo ferrado ! Mas Michel Alves recuperou-se bem da quase-falha que culminou em gol, de modo que, depois do empate, montamos nosso traiçoeiro ferrolho, com uma linha de quatro, outra de três e meio e um solitário Taison, ainda descontado, lá na frente, mas sempre levando pavor aos zagueiros adversários. Além disso, nem todas as vozes desmentiam a evidente falha do auxiliar, pois Wellington Paulista estava flagrantemente impedido quando chutou para o gol após o rebote do Michel Alves. Mas não estávamos, neste ano, para chorar o leite derramado.
Naquele 7 de junho, em que um médico do Real Madri chegava à Recife para fazer curativo no Kaká e leva-lo para o Santiago Bernabeu, tirando-o do Berlusconi que se juntava a Sarkozy e vencia o parlamento europeu, o Mengo fez dois gols em nove minutos e tomou quatro, do Leão, na Ilha do Retiro. Também o Porco, de virada, tirou a vice-liderança do Vitória, no Parque Antártica, por dois a um (que deveria ser dois a dois, pois um dos milagres de Marcos só pode ser assim considerado porque o auxiliar não viu que a bola entrou). Aliás, era digno de nota o que o Marcos fazia pelo Porco, não apenas pelas suas defesas e não-defesas - como uma em que ele ficou no chão umas quatro vezes, tentando impedir o chute a gol - mas porque a gente sempre podia esperar um bate-boca dele com o Luxa. O super Avaí segurou o Tricolor e o Muricy, na Ressacada, sem mexer no placar. Celso Roth despediu o Geninho que havia sido, dias antes, o único motivo para o Paulo Baier ingressar no Atlético Paranaense e o Galo Mineiro sagrava-se, assim, o vice-líder da quinta rodada. O jogo dos Santos (André e o Peixe) foi um eletrizante 3 a 3. O Grêmio meteu, na quinta-feira, três a zero no Náutico, selando a paz momentânea entre Souza e Maxi Lopes. Goiás e Barueri lutavam e empatavam entre si, numa disputa particular para ver, antes, quem tinha mais possibilidade de cair. Por fim, o Corinthians fez o placar clássico no Coritiba, deixando-o com a lanterna na mão.
Sabemos todos que o mundo da bola muitas vezes nos prega peças, mas em outras reconstitui retratos de um passado vivido repetidamente por nós mesmos ou por outras equipes. Na quarta, 3, vencemos o Coritiba por 3 a 1, no Gigante, pela Copa do Brasil. Vejam só quantas coincidências, ali mesmo, já se manifestavam: a) após a derrota no jogo de ida, a direção do Coxa incendiou a torcida com uma campanha baseada na mais derrotista de todas as frases, “eu acredito”, epíteto de uma das maiores tragédias do Fluminense (derrota na Libertadores, para a LDU, ano passado), para tentar nos vencer; b) o Coxa, como nós, completava cem anos logo ali adiante e todos sabemos que, em alguns casos, é melhor comemorar logo o 101o aniversário; c) agarrava-se à zona de rebaixamento como um faminto a um prato de comida e já na quinta rodada estava a quatro pontos do primeiro não-rebaixado – já que seu saldo negativo era muito alto; d) e, finalmente, como nós passamos da euforia (a possibilidade de disputar a final da Copa do Brasil de 1999) à depressão profunda (a partir da goleada sofrida para o Juventude em pleno Gigante), o time salvando-se na última rodada do Brasileirão daquele ano, com um gol de cabeça do Dunga contra o Palmeiras, tudo sinalizava que o Coxa passava a correr esse sério risco.
Àquela altura do ano, lia, atenta e lentamente, Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil, de José Miguel Visnik, Cia. das Letras, uma viagem incrível e profunda no mundo da bola. E o destino do Coxa naquela semifinal da Copa do Brasil, fez-me lembrar da passagem que Visnik lançou na pág. 69, que faço questão de reproduzir aqui:
Levi-Strauss compara o futebol ritualizado dos nativos da Nova Guiné aos ritos funerários dos índios fox, que visavam a propiciar a partida dos mortos sem despertar nestes o desejo de vingança, motivado pela “amargura e (...) saudades” de não estarem mais entre os vivos. Tais ritos, “indispensáveis para convencer a alma do morto a partir definitivamente para o além, onde assumirá o papel de espírito protetor, são normalmente acompanhados de competições esportivas, de jogos de destreza ou azar, entre dois campos constituídos de acordo com uma divisão (...) em duas metades (...); o jogo opõe vivos e mortos, como se antes de se desembaraçarem definitivamente dele os vivos oferecessem ao defunto o consolo de uma última partida”. Nessa partida das partidas, o time do “morto” deverá vencer sempre: “prescrevendo (...) o triunfo da equipe dos mortos, dá-se a estes (...) a ilusão de que são os verdadeiros vivos e que seus adversários estão mortos”, já que “ganhar um jogo é ‘matar’ o adversário”. Trata-se, então, de aplacar a ameaça contida na morte através da inversão do placar sagrado: os mortos são vivos e os vivos são mortos. Ou melhor: os mortos prevalecem sobre os vivos (dado que estes não têm escolha sobre a morte) e os vivos prevalecem sobre os mortos (pelo simples fato de estarem vivos) – com o que a luta duplamente desigual dá em empate. É o caso também de um outro rito dos mesmos povos algonquim “onde os neófitos se fazem matar simbolicamente pelos mortos, representados pelos iniciados, a fim de obter uma suplementação da vida real ao preço de uma morte simulada”.
Quer dizer, assim como o Palmeiras, que tomou cinco do Grêmio na Libertadores de 1995, no Olímpico, e depois fez os mesmos cinco no Parque Antártica, ficando de fora porque tomou um, sempre é importante acreditar que se está vivo neste tipo de competição. Todavia, quem tem a vantagem de saber ter matado o adversário e introjeta este trunfo na consciência vence, porque como os nativos da Nova Guiné, deve-se permitir aos mortos um último desejo, uma última vontade, uma última vitória.
Não dava para dizer que o (H)Ora Filho prejudicou o Inter ou o Cruzeiro, naquela quinta rodada; só dá pra dizer que ele apitou muito mal. E depois de constatar este fato, só me restava lembrar da genuína culinária mineira que saboreei no Ora Pro Nobis da encantadora Tiradentes, em fevereiro de 2008.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Um apelo às TVs: mostrem o Inter
Ugo Giorgetti
Falei do passado na última coluna e me dei mal. Disse que não houve incidentes na partida entre Corinthians e Fluminense em 1976, e que tudo se passou em santa paz. Fui corrigido pelo meu velho amigo, e grande diretor, Julio Xavier, citado na coluna e que, na ocasião foi ao Maracanã.
Ao contrário do que afirmei, o carro do Julio foi emboscado na entrada do Rio, com gente pisoteando o capô, a lataria sendo afundada, vidros quebrados e sua camisa do Corinthians arrancada violentamente. Mulheres que estavam no carro também não foram poupadas. Ele me diz, por fim, que soube de facadas e tiros. É isso que dá mexer no passado. Never more.
Por isso quero hoje me dedicar ao presente, e começo com um apelo. Senhores responsáveis pela programação das TVs, pensem um pouco nos pobres telespectadores de S.Paulo. Parem de nos mostrar jogos como os desta semana. Ainda há nesta cidade pessoas que gostam de futebol. Por favor, transmitam os jogos do Internacional de Porto Alegre. Não só em TV fechada, mas aberta, para todo o país, talvez em rede nacional como os pronunciamentos do presidente.
Não adianta mostrar estádios lotados, com multidões esperando milagres de times medíocres. O Vasco deu pena. O time é horrível e, graças a Deus, entrou com um uniforme que nada lembrava o grande Vasco de outros tempos. O Corinthians, por sua vez, entrou de branco da cabeça aos pés, coisa que me lembrou o grande Santos, naturalmente, é claro até a bola começar a rolar. De Palmeiras e Nacional de Montevidéu nem é bom falar, tamanha a mediocridade.
Por que nos são os oferecidos esses jogos? Simples: nunca olhamos as coisas que estão perto. Só vemos o que está longe e daí a razão de assistirmos embevecidosa a Barcelona e Manchester.
Nada contra, são grandes times.
Mas bem aqui, a uma hora e meia de voo de S.Paulo e Rio, se jogam um futebol de extraordinária qualidade do qual vemos aqui em S.Paulo apenas os gols e alguns lances nos noticiários noturnos. É pouco. Eu quero, e acho que muitos comigo, ver mais, muito mais de Taison, Andrezinho, Alecsandro, D'Alessandro e do magnífico Nilmar, de quem até Dunga foi obrigado a reconhecer o talento. Quero ver o Inter de Tite, um treinador que fala às vezes de modo misterioso, mas que transmite honestidade, respeito. Aliás, sua saída do Palmeiras foi exemplar. Preferiu deixar o clube a ser desrespeitado. É assim que procede um homem. Tite agora está colhendo o que merecia.
Enquanto os outros times apostam só no físico, na "determinação" e na monotonia da bola parada, o Inter aposta na bola no chão e no talento. No talento, na jogada individual, no drible em coisas que se julgavam perdidas para sempre.
É claro que para jogar assim é preciso ter talento. Mas descobri-lo e valorizá-lo não é a maior das virtudes, o maior dos méritos?Os meninos do Internacional não surgem do nada. São descobertos, treinados e lançados por gente que tem a cabeça no lugar e sabe o que faz. Inclusive contratar, quando necessário. Não é um time imbatível, pode nem ser campeão, mas muitas vezes o campeão não é o melhor. É só campeão. Por isso renovo o apelo: quando quiserem mostrar futebol, aquele velho futebol, arte, que ninguém sabe exatamente o que é, mas reconhece quando vê, por favor, virem seus olhos e câmeras para o Beira-Rio.
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