domingo, 7 de junho de 2009

(H)Ora pro nobis, filho



O nome do homem de amarelo para Cruzeiro e Inter, nas Alterosas, foi Antônio Hora Filho. Confesso que nunca havia ouvido falar no dito cujo. Afora Fluminense e Botafogo, em que Fred desencantou e marcou o gol da vitória do Tricolor do Parreira, não havia outros clássicos pela quinta rodada, em que perdemos nossos primeiros dois pontos.


Então, todos olhavam para nós naquele que seria uma prévia do grande jogo do campeonato, que se daria naquele ensolarado segundo domingo de setembro, com transmissão da Globo para todo o país, desta feita, direto do Gigante. O jogo foi nervoso, com lances de karatê, kung-fú e taekwondo, em especial uma voadora do Bolívar que, tomou amarelo e, depois disso, segurou o amarelo durante o jogo inteiro. E foi o dia em que nem o papai Lauro, talvez depois de tantas noites insones, agüentou Kleber, o bolero mais chato, marrento, malandro e anti-herói do futebol brasileiro, desde os tempos de Edmundo – no Palmeiras, porque nos outros clubes em que jogou, era injusto chamá-lo de Animal, tamanha a sua docilidade. No aguardo de um escanteio, Kleber deu um empurrão em Marcelo Cordeiro. Lauro tomou as dores, chega perto de Kleber que pisa no seu pé esquerdo, bem em cima do joanete, que dói pra burro e, como se tivesse recebido aquelas batidinhas do martelo do médico no joelho, nosso goleirão dá uma “botinada” na canela da “vítima”. O juiz aconselha-se com o bandeirinha, expulsa Kleber pela fama construída e pela péssima interpretação no “ai-ai-ai-minha-canela”, e o Lauro pelo “ato-reflexo involuntário” perfeitamente compreensível. Saímos na frente, com uma cabeçada certeira do Magrão, em cobrança de escanteio, em que um petrificado Fábio nada pôde fazer – que sina que goleiro do Cruzeiro tem em não esboçar reação quando toma gol de cabeça do Inter, como Raul, no gol iluminado” do Figueroa, em 1975. Com a expulsão do Lauro, saiu Alecsandro e entrou Michel Alves, com sua cachoupa agarrada na cabeça, que fez minha cara-metade perguntar: - Cruzes, quem é esse? É o Michel Alves, respondi, calmamente, temendo pelo pior que, nestes casos, é o eventual desdobramento da pergunta em outra ou outras: De onde ele saiu? Do Juventude, respondi, quase fechando os ouvidos, pois já sabia o que viria, que vem de longe minha ciência sobre a íntima relação que todas as mulheres do mundo têm com goleiros: NÃO VAI ME DIZER QUE É AQUELE QUE TOMOU 8 GOLS, ANO PASSADO, UM DELES DO MEU CLEMER ? Ai meu Deus, tamo ferrado ! Mas Michel Alves recuperou-se bem da quase-falha que culminou em gol, de modo que, depois do empate, montamos nosso traiçoeiro ferrolho, com uma linha de quatro, outra de três e meio e um solitário Taison, ainda descontado, lá na frente, mas sempre levando pavor aos zagueiros adversários. Além disso, nem todas as vozes desmentiam a evidente falha do auxiliar, pois Wellington Paulista estava flagrantemente impedido quando chutou para o gol após o rebote do Michel Alves. Mas não estávamos, neste ano, para chorar o leite derramado.


Naquele 7 de junho, em que um médico do Real Madri chegava à Recife para fazer curativo no Kaká e leva-lo para o Santiago Bernabeu, tirando-o do Berlusconi que se juntava a Sarkozy e vencia o parlamento europeu, o Mengo fez dois gols em nove minutos e tomou quatro, do Leão, na Ilha do Retiro. Também o Porco, de virada, tirou a vice-liderança do Vitória, no Parque Antártica, por dois a um (que deveria ser dois a dois, pois um dos milagres de Marcos só pode ser assim considerado porque o auxiliar não viu que a bola entrou). Aliás, era digno de nota o que o Marcos fazia pelo Porco, não apenas pelas suas defesas e não-defesas - como uma em que ele ficou no chão umas quatro vezes, tentando impedir o chute a gol - mas porque a gente sempre podia esperar um bate-boca dele com o Luxa. O super Avaí segurou o Tricolor e o Muricy, na Ressacada, sem mexer no placar. Celso Roth despediu o Geninho que havia sido, dias antes, o único motivo para o Paulo Baier ingressar no Atlético Paranaense e o Galo Mineiro sagrava-se, assim, o vice-líder da quinta rodada. O jogo dos Santos (André e o Peixe) foi um eletrizante 3 a 3. O Grêmio meteu, na quinta-feira, três a zero no Náutico, selando a paz momentânea entre Souza e Maxi Lopes. Goiás e Barueri lutavam e empatavam entre si, numa disputa particular para ver, antes, quem tinha mais possibilidade de cair. Por fim, o Corinthians fez o placar clássico no Coritiba, deixando-o com a lanterna na mão.


Sabemos todos que o mundo da bola muitas vezes nos prega peças, mas em outras reconstitui retratos de um passado vivido repetidamente por nós mesmos ou por outras equipes. Na quarta, 3, vencemos o Coritiba por 3 a 1, no Gigante, pela Copa do Brasil. Vejam só quantas coincidências, ali mesmo, já se manifestavam: a) após a derrota no jogo de ida, a direção do Coxa incendiou a torcida com uma campanha baseada na mais derrotista de todas as frases, “eu acredito”, epíteto de uma das maiores tragédias do Fluminense (derrota na Libertadores, para a LDU, ano passado), para tentar nos vencer; b) o Coxa, como nós, completava cem anos logo ali adiante e todos sabemos que, em alguns casos, é melhor comemorar logo o 101o aniversário; c) agarrava-se à zona de rebaixamento como um faminto a um prato de comida e já na quinta rodada estava a quatro pontos do primeiro não-rebaixado – já que seu saldo negativo era muito alto; d) e, finalmente, como nós passamos da euforia (a possibilidade de disputar a final da Copa do Brasil de 1999) à depressão profunda (a partir da goleada sofrida para o Juventude em pleno Gigante), o time salvando-se na última rodada do Brasileirão daquele ano, com um gol de cabeça do Dunga contra o Palmeiras, tudo sinalizava que o Coxa passava a correr esse sério risco.


Àquela altura do ano, lia, atenta e lentamente, Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil, de José Miguel Visnik, Cia. das Letras, uma viagem incrível e profunda no mundo da bola. E o destino do Coxa naquela semifinal da Copa do Brasil, fez-me lembrar da passagem que Visnik lançou na pág. 69, que faço questão de reproduzir aqui:


Levi-Strauss compara o futebol ritualizado dos nativos da Nova Guiné aos ritos funerários dos índios fox, que visavam a propiciar a partida dos mortos sem despertar nestes o desejo de vingança, motivado pela “amargura e (...) saudades” de não estarem mais entre os vivos. Tais ritos, “indispensáveis para convencer a alma do morto a partir definitivamente para o além, onde assumirá o papel de espírito protetor, são normalmente acompanhados de competições esportivas, de jogos de destreza ou azar, entre dois campos constituídos de acordo com uma divisão (...) em duas metades (...); o jogo opõe vivos e mortos, como se antes de se desembaraçarem definitivamente dele os vivos oferecessem ao defunto o consolo de uma última partida”. Nessa partida das partidas, o time do “morto” deverá vencer sempre: “prescrevendo (...) o triunfo da equipe dos mortos, dá-se a estes (...) a ilusão de que são os verdadeiros vivos e que seus adversários estão mortos”, já que “ganhar um jogo é ‘matar’ o adversário”. Trata-se, então, de aplacar a ameaça contida na morte através da inversão do placar sagrado: os mortos são vivos e os vivos são mortos. Ou melhor: os mortos prevalecem sobre os vivos (dado que estes não têm escolha sobre a morte) e os vivos prevalecem sobre os mortos (pelo simples fato de estarem vivos) – com o que a luta duplamente desigual dá em empate. É o caso também de um outro rito dos mesmos povos algonquim “onde os neófitos se fazem matar simbolicamente pelos mortos, representados pelos iniciados, a fim de obter uma suplementação da vida real ao preço de uma morte simulada”.


Quer dizer, assim como o Palmeiras, que tomou cinco do Grêmio na Libertadores de 1995, no Olímpico, e depois fez os mesmos cinco no Parque Antártica, ficando de fora porque tomou um, sempre é importante acreditar que se está vivo neste tipo de competição. Todavia, quem tem a vantagem de saber ter matado o adversário e introjeta este trunfo na consciência vence, porque como os nativos da Nova Guiné, deve-se permitir aos mortos um último desejo, uma última vontade, uma última vitória.


Não dava para dizer que o (H)Ora Filho prejudicou o Inter ou o Cruzeiro, naquela quinta rodada; só dá pra dizer que ele apitou muito mal. E depois de constatar este fato, só me restava lembrar da genuína culinária mineira que saboreei no Ora Pro Nobis da encantadora Tiradentes, em fevereiro de 2008.


Um comentário:

  1. Ai, paiê! Eu não gosto quando tu fica muito tempo sem atualizar, o inter empatou no beira rio por que não tinha nadinha novo aqui, A-POS-TO!

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