domingo, 24 de maio de 2009

O que pode ser pior que fazer prova ?

- Só tem duas coisas piores do que fazer prova, disse Clarinha, oito anos, olhos muito azuis, fitando a estrada que insistia em não repetir paisagens: - morrer e desmaiar! Não sei o porquê da ordem estabelecida pela autora da genial resposta, mas a percepção que o ser humano tem de tudo que acontece ao seu redor é sempre marcada por um grau elevado de dramaticidade, afinal o que pode não ser nada para a maioria dos mortais, para nós é simplesmente vital. O que se constitui em um rematado absurdo, pois se todos habitamos o mesmo planeta, comemos com a boca, ouvimos com os ouvidos e sentimos os cheiros das coisas pelo nariz, fico um tanto quanto atônito quando um “semelhante do sexo masculino” diz que não gosta de futebol. A primeira coisa que penso é que, evidentemente, esse ser é de outro planeta. Ao depois, dependendo da resposta, como, por exemplo, se o sujeito diz que gosta de ciclismo e de jiu-jitsu, passo a ter certeza de que se o cara não é um E.T., por certo, é "chipado".

Pois bem, o mítico dia 20 de maio de 2009, em que batemos o Flamengo e assim avançamos para as semifinais da Copa do Brasil contra o também centenário Coritiba, trazia elevada eletricidade no ar a que estava, confesso, desacostumado. Já escrevi que não acredito em superstição (embora a isso não se equipare, por exemplo, sentar na terceira cadeira à esquerda, da décima quarta fila, à direita de quem entra pelo portão 8 do Gigante), tendo, inclusive, desenvolvido uma tese extensa e muito bem fundamentada a respeito do assunto. Mas, porém, todavia, contudo, as horas que precederam ao grande jogo foram angustiantemente periclitantes, pois perdi minha carteira e precisei conseguir uma emprestada. E, como se sabe, grandes jogos no Beira-Rio trazem um pouco de preocupação quanto ao acesso, já que o estádio, com capacidade para 50 mil pessoas, não conseguia mais acomodar os 88 mil sócios, número anunciado naquela noite.

O clima no ar era pesado. Procurei agarrar-me a alguns fatos que foram marcantes, naquela semana. O primeiro deles, Juan havia brigado com Cuca, na segunda-feira, por causa do excesso de treinamentos. Pensei: vamos fazer um gol, logo, com falha do Juan. Depois, quando o Mengo empatou, procurei pensar em coisas boas e as imagens das partidas em que ao invés de sofrermos gol, no final, o fizemos, renovavam-me as esperanças. Ibson, um craque “do futebol moderno” – que é diferente do craque de antigamente que se afirmava como nome próprio – fez uma falta absolutamente ridícula em Glaydson, que se não fosse pela falta não ofereceria nenhum perigo ao gol de Bruno.

Então, quando Andrezinho e D’Alessandro posicionaram-se para bater a falta, aos 43 minutos do segundo tempo, pude perceber claramente o que ocorreria. Lembrei-me de Cláudio Olímpio e do Edinho, dizendo que Andrezinho tivera poliomelite, perguntando como “é que vocês aguentam esse cara”. E lembrei da polêmica sobre a contratação (que não aconteceu) do Petkovic pelo próprio Flamengo, seus desdobramentos com a demissão-não-demissão do Kleber Leite por conta do fato. E lembrei do gol do Pet no Vasco, em 2001, aos 43’13” do segundo tempo, um golaço de falta em que a bola viajou um metro para fora do campo e depois entrou no ângulo. E que isso não acontece por acaso. E, então, tudo veio de roldão porque essas coisas todas não acontecem por acaso, elas se repetem. Como Nilmar copiou Maradona, dez dias antes, Andrezinho repetiu Petkovic, colocou a bola, com a mão, no ângulo de Bruno e, inapelavelmente, despachou o Mengão da Copa do Brasil. O Coxa venceu a Ponte com um gol no final, em pleno Couto Pereira, onde decidiríamos tudo, dali a duas quartas-feiras. O Corinthians, após abrir dois a zero em pleno Maracanã, deixou o Flu empatar, mas garantiu a classificação por ter vencido o jogo da ida por um a zero. O Timão faria a outra semifinal contra o Vasco, que empatou com o Vitória em 1 a 1, não sem antes tomar um susto, com um gol logo nos primeiros minutos.

A terceira rodada do Brasileirão não trouxe grandes surpresas: o Tricolor bateu o Fogão, no Olímpico, com direito a gol de bico do Jonas. São Paulo e Palmeiras empataram sem gols num Palestra Itália com muito pouca gente. O Galo Mineiro ganhou do Leão na Ilha do Retiro e preparou a queda de Nelsinho. Celso Roth, como sempre, começava bem, mas também já se sabia que terminaria como sempre terminava. O Fluminense tomava 4 do Peixe, em pleno Maracanã. O Vitória foi ao Mineirão e deu mais uma lógica, com a vitória do Cruzeiro. Santo André e Flamengo se engalfinhavam, mas o segundo ganhava, enfim. Avaí e Coxa, em Florianópolis, empatavam, em um jogo redundantemente igual. O Náutico, talvez a única surpresa, foi à Arena, pródiga em tragédias, e venceu o Atlético Paranaense, de virada.

No sábado, havia ido ao Queens, em Bento. Acomodei-me junto ao balcão e mentalizei uma vitória sobre o Goiás, em pleno Serra Dourada. Era o jogo em que Harley completava trezentos jogos com o Goiás, pelo Campeonato Brasileiro. Lamentavelmente (para ele, não para nós), Harley tomaria mais um gol, aos trinta e dois do segundo tempo, uma linda cabeçada de Taison que aparou um cruzamento certeiro de Marcelo Cordeiro. Luiz Carlos Jr., no Sportv, de maneira profética, disse: Com Taison em campo, pode-se esperar tudo! Poupamos, no jogo, D’Alessandro, Nilmar, Kleber e Índio. Taison entrou no segundo tempo, aos 15, logo depois de Sandro ocupar a vaga de Magrão. A grande notícia do jogo foi a volta de Sorondo, soberano na bola aérea, uma verdadeira tranqüilidade para o Lauro que fez uma das mais lindas defesas do campeonato, aparando com a mão uma bola desviada à queima roupa e de canela pelo Sandro.

Àquela altura do campeonato, liderávamos com cem por cento de aproveitamento. Em segundo lugar vinham Náutico e Atlético Mineiro com sete e, em terceiro, com seis, Cruzeiro e Vitória. O UOL reproduzia, como frase da semana, a de Taison: “Esse gol serviu para mostrar que não sou jogador só de gauchão”. E, em destaque, arrematava: “Inter bate Goiás por 1 a 0 e dispara na liderança”. O Terra anunciava: Inter vence e é o único 100%, referindo-se ao fato de que alcançávamos a liderança do campeonato sem tomar um único gol, em três rodadas.

Sobre o que poderia ser pior do que fazer prova, lembrei-me de que Roland Garros começava naquele domingo e que três brasileiros, além de Thomaz Belucci, superaram o qualifyng e se credenciavam a disputar a chave principal: Franco Ferreiro, Thiago Alves e Marcos Daniel. Olhando a chave, vi que o último deles, justamente o colorado de Passo Fundo Marcos Daniel, pegaria ninguém mais ninguém menos do que Rafael Nadal, em plena quadra central. Clarinha ainda não sabia, mas há coisas bem piores do que fazer prova, morrer e desmaiar.

Um comentário:

  1. Pai, lê o último post do Gregório (30/05)... Ele me pediu que te encaminhasse!
    Muitos beijoss!

    http://gregoriogrisa.blogspot.com/

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